Golpe de cassetete dado por PM atingiu estudante a mais de 108 km/h durante protesto, diz laudo

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Documento apontou ainda que policial agrediu outra pessoa no evento e não relaciona Mateus Ferreira com atos de vandalismo, mas diz que ele agia de forma a ‘orientar fluxo’ dos manifestantes.

laudo de uma perícia feita pelo Instituto de Criminalística de Goiás concluiu que o golpe de cassetete dado pelo capitão da PM Augusto Sampaio atingiu o estudante Mateus Ferreira, de 33 anos, a mais de 108 km/h. A agressão ocorreu em abril durante um protesto, em Goiânia. O documento aponta que o militar agrediu outro manifestante segundos depois e pondera que, apesar de Mateus não ter participado dos atos de vandalismo na ocasião, agiu de forma a “orientar o fluxo” e mantinha o rosto coberto “em coesão com os demais manifestantes do grupo”.

O policial já foi denunciado pelo Ministério Público pelos crimes de abuso de autoridade e lesão corporal gravíssima.

O G1 tenta contato, desde às 8h desta terça-feira (3), com os advogados de Mateus e Sampaio, mas as ligações não foram atendidas até a publicação desta reportagem.

O G1 também procurou a assessoria de imprensa da PM de Goiás, por email, e aguarda retorno.

A análise é assinada pelos peritos Ricardo Henrique Teixeira Bittencourt e Thyago Sousa Mendes. Eles se basearam em vídeos e fotos feitos durante o protesto para chegar às conclusões.

Acerca da velocidade em que o cassetete atinge o estudante, os peritos levaram em conta “o movimento do antebraço, do punho, do braço e do próprio corpo de quem manipula o bastão, aumentando a velocidade impressa ao cassetete”, além de cálculos matemáticos.

Os profissionais salientam ainda que são adotadas “simplificações”, mas que elas foram usadas afim de obter um “valor menor do que no caso real” e, portanto, “a velocidade real é, muito provavelmente, maior que 108 km/h”.

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Outra agressão

Imagens que constam no relatório mostram que logo após atingir Mateus, Sampaio avança sobre outro manifestante que está com o rosto encoberto. Exatamente 214 segundos depois, ele usa dá golpes com o mesmo cassetete, além de chutes no rapaz, que cai no chão.

Apesar dos atos, os peritos ponderam que não é possível fazer juízo de valor se o militar agiu “no calor dos ânimos” ou que é possível inferir qualquer opinião sobre a intenção dele em acertar o estudante.

Ainda sobre a questão, explica-se que a perícia “não tem por finalidade realizar inferências sobre vontade, intenção ou objetivo” e que o estudo “se restringe a explicitar e analisar eventos que tenham sido, de alguma forma, materializados”.

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Vandalismo

O laudo descreve que na tarde de 28 de abril, dia do protesto, vários manifestantes encapuzados se concentraram em frente a um carro de som, sendo que um deles coloca um artefato explosivo ali próximo, que explode em seguida. Eles realizam “ações coordenadas” e queimam bandeiras e fazem barreiras de escudos improvisados.

Também foram percebidos confronto com as forças policiais em vários momentos. Em alguns momentos, os manifestantes aparecem jogando pedras, paus e outros objetos contra a corporação.

Sobre a participação de Mateus, o laudo constatou que ele “não participou das ações coordenadas” de vandalismo. No entanto, é possível vê-lo gesticulando de forma a “orientar o fluxo dos manifestantes, caminhava próximo ao grupo em ações de vandalismo e mantinha o rosto encoberto, em coesão com os demais manifestantes do grupo”.

Cassetete quebra

O caso aconteceu no dia 28 de abril, durante uma manifestação contra as reformas Trabalhista e Previdenciária, no Centro de Goiânia. Após ser atingido por um cassetete, Mateus foi socorrido por outros manifestantes, que o colocaram em cima de uma placa onde recebeu atendimento do Corpo de Bombeiros.

Um vídeo mostra em detalhes o momento em que o estudante levou o golpe no rosto (veja acima). Fotos também registraram a agressão. O impacto foi tão grande que o cassetete quebrou com a pancada.

Em seguida, o estudante foi levado para o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde ficou internado por 18 dias, sendo 11 deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O estudante passou por duas cirurgias. Na primeira, os médicos retiraram pedaços do osso quebrado. O segundo procedimento foi para reconstruir a parte afetada pela pancada na testa. Para isso, foram usados pinos e cimento ortopédico.

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Denúncia

Sampaio foi denunciado pelo MP por abuso de autoridade. O promotor de Justiça Paulo Cesar Torres, que assina o documento, entendeu que a ação foi “excepcionalmente desnecessária e violenta” e que poderia ter ferido qualquer outra pessoa que estivesse no ato. O policial já tinha sido denunciado por lesão corporal gravíssima no mesmo episódio.

A atitude do militar, que está afastado das ruas, ao agredir Mateus com o cassetete na cabeça, segundo o representante do MP, foi “violenta e desproporcional, com abuso de autoridade” contra o segurança física do estudante.

Torres pontua ainda que os órgãos de segurança, inclusive a PM, “tiveram tempo hábil para programar a segurança do evento e tomar medidas efetivas para a proteção do cidadão e do patrimônio”.

Durante audiência de qualificação na Justiça Militar, realizada em 19 de julho, Sampaio declarou que foi ameaçado de morte. Por isso, ele pediu para não informar ao Poder Judiciário o endereço da casa em que mora, apenas o do trabalho, o que foi atendido.

Por G1

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