Empresário, dono de salão, afirma: “Não contrato preto, gordo, petista, feminista e viado”

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Um áudio com declarações racistas, homofóbicas e machistas atribuídas ao cabeleireiro Diego Beserra Ernesto, dono de um salão no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo, provocou indignação nas redes sociais e levou o caso à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

Na gravação, que circula desde o início da semana, o profissional afirma que não contrata “gordo, petista, preto, feminista e viado”. A mensagem foi enviada por Diego a um colega de profissão, o cabeleireiro Jeferson Dornelas, no último 12 de janeiro, após uma conversa sobre a contratação de uma auxiliar.

“Eu coloquei uma regra pra mim. Eu não contrato gordo, petista e não contrato preto. No caso do preto, alguns se fazem de vítima da sociedade. […] Esqueci de falar, mano. Não contrato mais viado. Só se a pessoa estiver mentindo”, diz o áudio, que soma mais de dois minutos.

O caso

Dornelas contou à reportagem que alugava parte do salão de Diego para atender seus próprios clientes e que pretendia contratar uma assistente — Ana Carolina Alves de Souza, mulher negra, gorda e de cabelos curtos — que chegou a fazer um teste no local.

Segundo Jeferson, após Ana desistir da vaga por motivos pessoais, Diego enviou a mensagem com ofensas.

“Eu falei que a moça não iria trabalhar mais porque recebeu outra proposta. A resposta foi esse áudio”, disse. “Ele já dava indícios desse comportamento, mas nunca tinha falado algo tão explícito.”

Jeferson afirma que registrou boletim de ocorrência e que está “psicologicamente abalado” com o episódio. “É muito triste ouvir uma coisa dessas. Eu só quero que a Justiça siga seu curso”, declarou.

Após a repercussão, os perfis de Diego nas redes sociais, que somavam milhares de seguidores, foram fechados. O cabeleireiro teria procurado Jeferson para propor um acordo e pedir uma retratação.

“Me senti julgada pela cor da minha pele”, diz auxiliar

Ana Carolina Alves de Souza, a mulher citada na conversa, contou que se sentiu constrangida durante o teste no salão.

“Ele me olhava de um jeito que me fez sentir um incômodo enorme, como se eu não devesse estar ali”, relatou.

Após descobrir o conteúdo dos áudios pela internet, ela afirmou que também pretende registrar boletim de ocorrência.

“Estou arrasada, triste e sem reação. Fui julgada pela cor da minha pele, pelo meu cabelo, pelo meu corpo. Isso me desmereceu como mulher.”

Repercussão e denúncia ao Ministério Público

O ativista de direitos humanos Antonio Isuperio foi o responsável por divulgar o caso nas redes sociais e formalizar uma denúncia ao Ministério Público de São Paulo. Para ele, “a atitude é criminosa e simbólica, porque mostra o preconceito estrutural que muitos ainda fingem não ver”.

A CNN, que também apurou o caso, informou que aguarda manifestações do Ministério Público e da Polícia Civil sobre o andamento da investigação.

O que diz a defesa

A reportagem tentou contato com Diego Beserra, mas não obteve retorno. Em nota, sua defesa afirmou que os áudios foram tirados de contexto e que a conversa completa teria começado com Jeferson comentando a aparência e o comportamento da funcionária.

Os advogados alegam ainda que “nem toda fala ofensiva configura crime” e que Diego “está sendo vítima de incitação ao ódio, calúnia, ameaça e difamação” após a divulgação das mensagens. Um segundo defensor disse que ainda apura o caso antes de se manifestar oficialmente.

Entendimento jurídico

Segundo a Lei nº 14.532/2023, que atualiza os crimes de discriminação e preconceito de raça, cor, etnia, religião e procedência, negar ou impedir emprego em empresa privada por esses motivos é crime.

O texto prevê que o juiz deve considerar discriminatória qualquer conduta que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida a pessoas ou grupos minoritários.

Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, cuja pena pode variar de dois a cinco anos de detenção.

A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em janeiro de 2023 — o mesmo mês em que a conversa entre os cabeleireiros foi trocada.

Por G5

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