A Era de Ouro dos FIDCs: o Mercado de Recebíveis Se Tornou o Porto Seguro Rentável de 2026

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O mercado de capitais brasileiro atravessa uma metamorfose silenciosa, mas de cifras astronômicas. De acordo com a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos
Mercados Financeiro e de Capitais), em 2025 o setor ja havia dado sinais de robustez com emissões recordes de R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, alta de 6,4% ante o ano de 2024 (R$ 788,1 bilhões).

Os FIDCs (Fundos de Investimento em Direit (Creditórios) registraram a maior captação entre os títulos de securitização, com os R$ 90,8 bilhões representando um aumento de 9,5% em relação ao ano anterior.
O primeiro trimestre de 2026 ratifica a alta dos FIDCs, que deixaram de ser um produto de nicho para se tornarem protagonistas na carteira de investidores.

Apenas em fevereiro de 2026, os FIDCs registraram captação líquida de R$ 221 milhões, enquanto outras classes de ativos estruturados sofriam com a volatilidade.
Mas o que explica essa explosão? A resposta reside em uma combinação de alguns fatores, e para Volnei Eyng, CEO da Multiplike, existem dois principais crescimento da desbancarização e a própria legislação, que amadureceu com normativas regulatórias. Além disso, a rentabilidade que entrega o desejado “CDI+” que o investidor brasileiro tanto persegue também contribuiu para a popularização.

O que são e como funcionam os FIDCs?

Para entender o sucesso atual, é preciso dissecar a estrutura. O FIDC é um condomínio de investimento que destina acima de 50% de seu patrimônio líquido para a aquisição de direitos creditórios – que nada mais são do que contas a receber de empresas (duplicatas, cheques, parcelas de cartão de crédito ou aluguéis).

O funcionamento assemelha-se a uma engrenagem de antecipação: uma empresa vende seus produtos a prazo e, em vez de esperar meses para receber, vende esses títulos para o FIDC com um desconto (deságio). O fundo ganha na diferença, e o investidor recebe o rendimento dessa operação.

E historicamente, o FIDC era um território dominado por investidores institucionais (bancos e fundos de pensão) e profissionais. No entanto, o cenário está mudando, embora as estratégias para cada perfil sejam distintas.

O investidor institucional e PJ, a classe que mais procura o ativo, busca estruturas de Fundo de Investimento em Cotas, os FIC-FIDC, ou cotas seniores de alto volume. Para as empresas (PJ) que operam como originadoras, o FIDC funciona como uma ferramenta estratégica de liquidez e governança. Institucionais buscam taxas que variam de CDI + 2% a CDI + 5%, dependendo do apetite de risco e do lastro.
Para a pessoa física, o FIDC atua como um turbo de renda fixa, ocupando geralmente até 30% da carteira, segundo Eyng.

Já o investidor pessoa física, passou a buscar os rendimentos prometidos pelos FIDCs com a Resolução 175 da CVM. Na prática, ela passou a permitir que investidores de varejo entrem nesses fundos e também aumentou a responsabilidade do gestor em checar a qualidade dos créditos que compõem o fundo. Richard Ionescu, CEO da IOX Capital, nota que “o investidor PF geralmente entra via fundos que investem em outros FIDCs para facilitar a governança evitando a necessidade de assembleias constantes com milhares de CPFs”.

A grande diferença reside na Cota Subordinada. Enquanto o investidor comum tem prioridade no recebimento e maior proteção, o investidor profissional o ou o dono do fundo costuma deter a cota subordinada, que absorve as primeiras perdas em caso de inadimplência, mas, em contrapartida, fica com todo o excedente de rentabilidade se o fundo performar bem.

A inadimplência é um fator de risco?

Uma das maiores preocupações de quem olha para o crescimento acelerado do setor é se a qualidade do crédito acompanhou o volume de captação.
Afinal, em um país com histórico de juros altos e endividamento, o risco de inadimplência é a sombra de qualquer fundo de recebíveis.
Contudo, dados recentes da Austin Rating trazem um alento estatístico. Em um estudo com 103 FIDCs ao longo de 2025 e início de 2026, a agência de classificação de risco observou que a inadimplência permaneceu em níveis moderados e estáveis.
Os atrasos iguais ou menores do que 15 dias flutuaram entre 7,5% e 9% do Patrimônio Líquido, enquanto a inadimplência real maior ou igual á 90 dias ficou entre 3,5% e 5%.
“O crescimento do patrimônio líquido não veio acompanhado de aumento proporcional do risco”, aponta o relatório da Austin Rating.

Ionescu reforça essa visão, destacando que a proteção está na pulverização. “Diferente de uma debênture de uma grande varejista, onde você tem um risco concentrado, o FIDC bem gerido é pulverizado. Se um devedor tem problema, ele representa 2% ou 3% do fundo, o que é facilmente contornável”, explica.
A queda da Selic não assusta os FIDCs

Um dos questionamentos mais frequentes no mercado financeiro é se a trajetória de queda da taxa Selic poderia retirar o fôlego dos FIDCs. Para os líderes do setor, a resposta é um sonoro “não”. Pelo contrário: o movimento é visto como positivo e sinalizador de maturidade.

Historicamente, o crescimento recente foi impulsionado pela Selic alta, que fez os grandes bancos “fecharem a torneira” do crédito para preservar seus balanços. O FIDC ocupou esse vácuo com agilidade e tecnologia. Agora, com a queda dos juros, o cenário muda para melhor por três motivos principais: custo capital, manutenção do spread e fidelidade.

Para Pedro Paulo Da Matta, CEO da Audax Capital, as empresas já se acostumaram a operar com o mercado de capitais. “O setor agora oferece operações de longo prazo, estruturadas e com garantias reais, mantendo-se competitivo mesmo com juros menores”.

Por Forbes

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